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Quine – Dois Dogmas do Empirismo [1]

Traduzido de http://www.ditext.com/quine/quine.html

Dois Dogmas do Empirismo

Willar Van Orman Quine

O empirismo moderno foi na maior parte condicionado por dois dogmas. Um é a crença em alguma desunião fundamental entre os juízos que são analíticos, ou fundados em significados independentemente das questões de fato, e juízos que são sintéticos, ou baseados em fatos. O outro dogma é o reducionismo: a crença de que uma frase enunciativa é equivalente a alguma construção lógica sobre termos que se referem a experiência imediata. Ambos os dogmas, eu argumento, são nocivos. Um efeito de abandoná-los é, como veremos, um desaparecimento das supostas ligações entre a metafísica especulativa e a ciência natural. Outro efeito é um avanço em direção ao pragmatismo.

1.PLANO DE FUNDO PARA A ANALITICIDADE

A separação de Kant entre os juízos analíticos e sintéticos foi prenunciada pela distinção de Hume entre relações de idéias e questões de fato, e na distinção de Leibniz entre verdades de razão e verdades de fato. Leibniz falou das verdades de razão como verdadeiras em todos os mundos possíveis. Deixando o aspecto pitoresco de lado, isso significa dizer que as verdades de razão são aquelas que não poderiam ser falsas. No mesmo estilo nós ouvimos que proposições analíticas serem definidas como proposições das quais as negações são auto-contraditórias. Mas essa definitção tem pouco valor explicativo; a noção de auto-contradição, no sentido mais amplo necessário para essa definição de analiticidade, se situa na mesma necessidade de esclarecimento que a noção de analiticidade possui. As duas noções são os dois lados da mesma moeda duvidosa.

Kant considerou uma proposição analítica como aquela que atribui ao seu sujeito não mais do que já está conceitualmente contido no sujeito. Esta formulação tem duas consequências: se limita a frases de forma sujeito-predicado, e apela para a noção de conteúdo que é deixada em um nível metafórico. Mas a intenção de Kant, mais evidente do uso que ele faz da noção de analiticidade do que sua definição da mesma, pode ser reformulada da seguinte forma: um juízo é analítico quando é verdadeiro em virtude dos significados e independente do fato. Seguindo esta linha, nos permita examinar o conceito de significado que é pressuposto.

(Versão de 1951)

Nós devemos observar, como ponto de partida, que significado não é para ser identificado como nomeação ou referência. Considere o exemplo de Frege da ‘Estrela Vespertina’ e ‘Estrela D’alva’. Entendida não meramente como uma aparição noturna recorrente, mas como um corpo, a Estrela Vespertina é o planeta Venus, e a Estrela D’alva é a mesma coisa. Os dois termos particulares nomeam a mesma coisa. Mas os significados devem ser tratados como distintos, desde que a identidade ‘Estrela Vespertina = Estrela D’alva’ é uma proposição de fato estabelecida pela observação astronômica. Se ‘Estrela Vespertina’ e ‘Estrela D’alva’ fossem iguais no significado, a identidade ‘Estrela Vespertina = Estrela D’alva’ seria analítica.

Novamente há o exemplo de Russell, do ‘Scott’ e ‘o autor de Waverly’. A análise de significados de palavras de maneira nenhuma foi suficiente para revelar a George IV que a pessoa nomeada por esses dois termos particulares era uma e a mesma.

A distinção entre significado e nomeação é não menos importante no nível de termos abstratos. Os termos ‘9’ e ‘O número de planetas’ nomeam uma e a mesma entidade abstrata mas presumivelmente deve ser considerada como diferente no significado; a observação astronômica foi necessária, e não mera reflexão de significados, para determinar que a entidade em questão é a mesma.

Até aqui nós consideramos os termos singulares.

(Versão de 1961)

Significado, nos permita recordar, não deve ser identificado como nomeação. O exemplo de Frege da ‘Estrela Vespertina’ e ‘Estrela D’alva’ e o exemplo de Russel, ‘Scott’ e ‘O autor de Waverly’, ilustram que termos podem nomear a mesma coisa mas são diferentes no significado. A distinção entre significado e nomeção não é menos importante no nível de termos abstratos. Os termos ‘9’ e ‘o número de planetas’ nomeiam uma e a mesma entidade abstrata mas presumivelmente devem ser considerados diferentes no significado; já que observação astronômica foi necessária, e não apenas a reflexão sobre os significados, para determinar a igualdade da entidade em questão.

Os exemplos acima consistem em termos singulares, concretos e abstratos.

Com termos gerais, ou predicados, a situaçao é um pouco diferente, mas paralela. Enquanto um termo singular nomeia  uma entidade, abstrata ou concreta, um termo geral não o faz; porém um termo geral é a verdade de uma entidade, ou de cada uma de muitas, ou de nenhuma. A classe de todas as entidades das quais um termo geral é a verdade é chamada de extensão do termo. Agora colocando em paralelo o contraste entre o significado de um termo singular e a entidade nomeada, nós devemos distinguir igualmente entre o significado de um termo geral e sua extensão. Os termos gerais ‘criatura com um coração’ e ‘criatura com um rim’, por exemplo, são talvez iguais na extensão mas diferentes no significado.

A confusão entre significado e extensão, no caso dos termos gerais, é menos comum que a confusão entre significado e nomeação no caso dos termos singulares. É, certamente, um lugar-comum na filosofia opor intensão (ou significado) a extensão, ou, em um vocabulário diferente, conotação a denotação.

A noção aristotélica de essência foi a antecessora, sem dúvida, da noção moderna de intensão ou significado. Para Aristóteles, era essencial no homem ser racional, mas acidental possuir duas pernas. Mas existe uma importante diferença entre essa atitude e a doutrina do significado. A partir do último ponto de vista, pode ser admitido (apenas visando o argumento) que racionalidade está envolvida no significado da palavra ‘homem’ enquanto ‘possuir duas pernas’ não está; mas ‘possuir duas pernas’ pode ao mesmo tempo ser visto como envolvido no significado de ‘bípede’ enquanto racionalidade não. Então a partir do ponto de vista da doutrina do significado, não faz sentido dizer que o indivíduo, que por sua vez é homem e bípede, que sua racionalidade é essencial e suas duas pernas são acidentais ou vice-versa. Coisas possuiam essências, para Aristóteles, mas apenas formas linguísticas tem significados. Significado é no que a essência se transofrma quando se divorcia do objeto de referência e se casa com a palavra.

Para a teoria do significado a questão mais evidente é em relação à natureza de seus objetos: que tipos de coisas são os significados?

(Versão de 1951)

Eles evidentemente são idéias, de alguma forma — idéias mentais para alguns semânticos, idéias platônicas para outros. Objetos de qualquer uma das duas opções são tão enganosos, para não dizer questionáveis, que parece haver pouca esperança de erigir uma ciência frutífera sobre eles. Não é ao menos claro, sobre os significados, quando nós temos dois e quando nós temos um; não é claro quando formas linguisticas deveriam ser consideradas como sinônimas, ou iguais no significado, e quando não deveriam. Se um padrão de sinonimia fosse alcançado, nós poderíamos esperar que o apelo aos significados como entidades acabaria não tendo um papel muito útil na empreitada.

A idéia de significados como entidades pode ser derivada de um fracasso anterior em reconhecer que significado e referência são distintos. Uma vez que a teoria do significado é claramente independente da teoria da referência, é um pequeno passo para reconhecer que a teoria do significado pode ser considerada sinônimo das formas linguisticas e da analiticidade de enunciados; significados por si mesmos, como entidades intermediárias obscuras, podem ser abandonados de uma vez.

Enunciados que são analíticos por consenso geral filosófico não são, certamente, difíceis de serem encontrados. Eles se dividem em duas classes. Aqueles da primeira classe, que podem ser chamados de logicamente verdadeiros, são representados por:

(1) Nenhum homem não-casado é casado.

A característica relevante deste exemplo é que nao é meramente verdadeiro como nos mostra, mas permanece verdadeiro sob qualquer e todas as reinterpretações de “homem” e “casado”. Se nós supormos uma inventário prévio de partículas lógicas,  composto por “não”, “se”, “então”, “e”, etc., então em geral uma verdade lógica é um enunciado que é verdadeiro e permanece verdadeiro sob todas as reinterpretações de seus componentes que não sejam partículas lógicas.

Mas há também uma segunda classe de enunciados analíticos, representados por:

(2) Nenhum solteiro é casado.

A característica de tal enunciado é que pode ser transformado em uma verdade lógica através da troca de sinônimos por sinônimos; portanto (2) pode ser transformado em (1) por substituir “homem não-casado” pelo seu sinônimo “solteiro”. Ainda nos falta uma caracterização apropriada desta segunda classe de enunciados analíticos, e ademais da analiticidade em geral, por esta razão, nós tivemos na descrição acima que nos apoiar na noção de “sinônimo” que não necessita menos de clarificação que a analiticidade.

Nos anos recentes Carnap pretendeu explicar a analiticidade recorrendo ao que ele chama de descrições de estado. Uma descrição de estado é qualquer associação exaustiva de valores-verdade aos enunciados atômicos, ou não compostos, da linguagem. Carnap assume que todos os outros enunciados da linguagem são construídos a partir de suas cláusulas componentes por meio dos mecanismos lógicos familiares, de uma maneira que o valor-verdade de qualquer frase complexa é fixado para cada descrição de estado por leis lógicas especificáveis. Um enunciado é dito analítico quando é verdadeiro sob todas as descrições de estado. Esta idéia é uma adaptação da “verdade em todos os mundos possíveis” de Leibniz. Mas note que essa versão da analiticidade serve ao seu propósito apenas se os enunciados atômicos da linguagem são, ao contrário de “João é  solteiro” e “João é casado”, mutualmente independentes. De outra maneira haveria uma descrição de estado que atribuiria verdade a “João é solteiro” e falsidade a “João é casado”, e consequentemente “Todos os solteiros são casados” se transformaria em juízo sintético em vez de analítico sob o critério proposto. Então o critério de analiticidade em termos das descrições de estado serve apenas para linguagens destituídas de pares de sinônimos extra-lógicos, tais como “solteiro” e “homem não-casado”: pares de sinônimos deste tipo que dão surgimento à “segunda classe” de juízos analíticos. O critério em termos das descrições de estado é uma reconstrução da verdade lógica.

Eu não pretendo sugerir que Carnap está preso a alguma ilusão neste ponto. Sua linguagem modelo simplificada com suas descrições é focada primariamente não no problema geral da analiticidade mas em outro propósito, a saber, a clarificação da probabilidade e indução. Nosso problema, entretanto, é a analiticidade;  e aqui a maior dificuldade não está na primeira classe de juízos analíticos, as verdades lógicas, mas sim na segunda classe, que depende da noção de sinônímia.

2. DEFINIÇÃO

(continua…)

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Categorias:Quine
  1. Rafael de Araujo Serra
    novembro 23, 2016 às 11:41 pm

    Quais são os dados bibiográficos do texto postado acima ?

  1. outubro 8, 2009 às 5:24 pm

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