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Argumentum Ad Hominem

A falácia informal mais famosa e mais usada em todos os tipos de discussões, tanto debates formais quanto discussões desimportantes da nossa vida diária. Argumentum Ad Hominem, talvez a falácia mais humana de todas, que consiste em ignorar por completo o que foi dito e atacar o interlocutor; Ad Hominem, do latim “contra o homem”, é, talvez, a maior expressão da irracionalidade a que somos submetidos ao tentar defender nossas paixões.

Enfim, o Argumentum Ad Hominem acontece quando se ataca o caráter, circunstância ou ações da pessoa que argumentou, criticando algo irrelevante ao que está em discussão e, por isso, o argumento da pessoa criticada é falso e digno de descrédito. É também um apelo usado quando uma pessoa discorda do argumento, mas é incapaz de encontrar nele uma falha. Em casos mais extremos de cegueira lógica, a pessoa que comete a falácia acredita que realmente refutou o argumento do oponente.

Exemplo:

Os nazistas adotaram o projeto de Eugenia.
Os nazistas eram más pessoas.
Então, a idéia de Eugenia é uma má idéia.


Neste exemplo de Ad Hominem, está implícita a idéia de que “Tudo o que vem dos nazistas é ruim e condenável”, e tal idéia acaba agindo como co-premissa no argumento. Para ilustrar uma discussão real onde se vê como o Ad Hominem atua, podemos fazer uma reconstrução:

(…)
Neo-Nazista: O projeto de Eugenia é o melhor meio de termos uma população saudável e superior em muitos aspectos.
João: Você é um nazista desgraçado, então a idéia de Eugenia deve ser condenada e proibida.


Percebe-se que tal tipo de raciocínio é utilizado em muitos contra-argumentos que têm base em preconceitos. Para que não me entendam mal e pensem que sou nazista ou defendo a Eugenia, mostrarei a estrutura básica do argumento falacioso:

Sujeito A afirma X.
Existe algo de criticável no sujeito A.
Por esta razão, tudo o que A afirma é ruim, falso ou condenável. (este juízo está implícito)
Logo, X é falso


A razão de o Ad Hominem ser uma falácia é que o caráter, as circunstâncias ou as ações de uma pessoa, na maioria dos casos, não influencia definitivamente na verdade ou falsidade do argumento feito pela pessoa.

Me expressei de modo inexado ao falar de verdade ou falsidade de um argumento, quando na realidade, um argumento só pode ser valido ou inválido, mas neste caso leia-se “verdade ou falsidade do que a pessoa diz”.

O Ad Hominem é uma arma retórica que não possui bases lógicas, mas sim psicológicas, provindas da nossa tendência cognitiva de formar padrões. Para entender isso é preciso lembrar que a lógica se baseia em relações entre enunciados, onde  conclusão deve ser necessária, isto é, deve seguir logicamente dos enunciados que sustentam o argumento. Se a conclusão não é derivada das premissas de maneira inescapável, tem alguma coisa errada. se não for um argumento indutivo (explicitamente probabilístico, que parte do particular para o geral), se trata de uma falácia. Pode-se tentar salvar a reputação do Ad Hominem dizendo que, p. ex., se o homem que argumenta é um mentiroso, então não é falacioso dizer que o discurso dele é falso. Mas a questão é que esta característica pessoal dele é apenas um indicador, e o máximo que pode ser concluído disto é que “existe a possibilidade de o discurso ser falso”. Isso poderia ser, legitimamente, dito em uma contra-argumentação; mas duas coisas são evidentes: não é possível extrairmos algo definitivo como “o discurso dele necessariamente é falso” e, por esta razão, inserir tais elementos na discussão trata-se apenas de uma estratégia retórica com o objetivo de influenciar a platéia ou mesmo enganar quem quer que seja. A outra coisa é que, a inserção de detalhes pessoais na discussão se trata de uma fuga do assunto; isto pode ser praticado propositalmente com o objetivo de escapar de uma dificuldade e tornar as coisas mais favoráveis.

A essência do Argumentum Ad Hominem está na inserção de material irrelevante ou distrativo, por isso ele é considerado uma falácia da categoria Red Herring. Na maioria dos casos, não é importante para o assunto qualquer detalhe pessoal daquele que argumenta:

“Você diz que este homem é inocente, mas isso não pode ser verdade porque você mesmo é um criminoso!”

“Como você pode dizer que ateus podem ser morais?
Você mesmo abandonou sua mulher e filhos.”


É comum também uma forma em que se faz referência a figuras tradicionalmente condenáveis:

“Então você acha que deveríamos fechar a igreja?
Hitler e Stalin teriam concordado com você.”


Argumentos Ad Hominem são sempre inválidos na lógica silogística, desde que a validade de uma inferência é independente da fonte que a enuncia. Contudo, é evidente que em casos onde o que se está sendo discutido é justamente o caráter da pessoa, objeções sobre a integridade dela poderiam ser legitimamente inseridos na refutação.

Rio 2016 e os opositores

Para terminar, mostrarei um exemplo que tem como base um tema bem recente.

A discussão política brasileira em botecos e na internet é dividia em três grupos, os aliados do governo, os pessimistas (também conhecidos como derrotados) e os opositores. Os aliados defendem o Lula como um semi-deus; os opositores são mais simples que um interruptor, pois o interruptor tem pelo menos duas funções, on e off, eles só tem uma, a saber, se opor; e os pessimistas se entregam à corrente do destino fatal e tem fé religiosa de que as coisas foram ruins, são ruins e para sempre serão ruins, para eles tudo tem apenas o lado negativo.

Então o seguinte fato se deu:

O primeiro-ministro da Bélgica, Herman Van Rompuy, afirmou neste domingo que o Brasil confirmou sua entrada no pelotão da liderança mundial com a escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Ele disse ainda que o Brasil, “a locomotiva latino-americana”, já está entre os grandes do planeta.

Partindo desta boa notícia, podemos facilmente prever qual seria a reação dos opositores e dos pessimistas. Podemos então imaginar como seria a resposta de um opositor ou pessimista que, sem mais alternativas, apelaria para um Argumentum Ad Hominem.

Argumento de um opositor:

Esse Herman van Rompuy é um incompetente até em suas próprias funções, como vai querer dizer se o Brasil tem condições de ser líder de alguma coisa? Van Rompuy assumiu no fim de 2008 e até agora não cumpriu com as promessas que emitiu na posse e ainda não promoveu a integração entre Bruxelas, Valônia e Flandres. E o que é a Bélgica? Nem tem grande importância econômica!!!! Só porque estão na união européia pensam que tem alguma moral… O Brasil está entre os grandes sim… entre os grandes da corrupção, os grandes da miséria e da violência!! O primeiro ministro Belga é muito bom em piadas.”

Este argumento tem uma das formas mais comuns de Ad Hominem que encontramos pela internet. Por não ter nada melhor para dizer, o opositor atacou diretamente aquele que lançou a afirmação sobre o Brasil como potência, e usou a falácia como trampolim para prosseguir na crítica mudando o foco para determinados problemas do Brasil, como corrupção e violência. Dizer que o primeiro-ministro não resolveu seus problemas internos e questionar a importância da Bélgica não tornam falsa a afirmação “O brasil está entre os grandes do planeta”. Este é um bom exemplo de argumentação desesperada e apelativa, não há nada mais comum.

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  1. abril 10, 2013 às 12:22 pm

    Muito bom, me ajudou muito, ficou mais fácil de compreender.

  2. Carvalho FN
    fevereiro 18, 2014 às 10:11 pm

    Então a frase: “Um homem é a medida de seus feitos” é praticamente um convite ao ad homimem?

  3. abril 2, 2014 às 7:27 pm

    Bem colocado Carvalho. Seria o valor que damos à reputação de alguém algo intrinsecamente falacioso?

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