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Non Causa Pro Causa

A falácia Non causa pro causa, também conhecida como Falsa Causa, é  um tipo geral de falácias que envolvem causalidade. Esta falácia ocorre quando se assume como causa de um efeito algo que não é a verdadeira causa. Muito comum em toda espécie de julgamento, normalmente é um erro de raciocínio cometido inconscientemente, isto é, sem a intenção de enganar, novamente relacionado com a nossa tendência cognitiva de identificar padrões. O erro emerge quando duas variáveis (eventos) possuem alguma relação e daí conclui-se que um causou o outro.

“Correlação não implica causação” é uma frase utilizada na ciência e na estatística e tem o objetivo de enfatizar que a correlação entre x e y, por si só, não nos permite concluir que x é a causa de y, ou y a causa de x,(apesar de o fato de x e  y estarem relacionados poder ser um indicador, ou um sinal, de que há uma relação de causa-efeito). O oposto desta frase, “Correlação prova causação”, consiste justamente na falácia Non causa pro causa, que afirma que se dois eventos acontecem ao mesmo tempo, ou um após o outro, está provado que é uma relação de causa e efeito.

A idéia de que correlação e causação estão conectadas certamente é verda-deira: a existência de uma relação é necessária para haja causação. Porém, a existência de causação não é necessária para que exista uma relação qualquer.

As falácias causais são um tipo de raciocínio indutivo que é executado de forma imprudente, para compreender melhor as instâncias da falácia da Falsa Causa, é preciso entender como o raciocínio causal funciona e quando funciona mal:

1. Eventos

Primeiro vamos nos limitar a este nível. Às vezes nós desejamos saber a causa de um evento específico, como por exemplo, um meteorologista fazendo experimentos a fim de descobrir a causa de um novo fenômeno climático em Buenos Aires. Eventos específicos tem como causa outros eventos específicos, então a forma do raciocínio causal em que nos baseamos é a seguinte:

Evento C causou o evento E

Os erros cometidos no nível de eventos, são consequência de se confundir coincidência com causação. O evento C pode acontecer ao mesmo tempo que o evento E, mas esta simultaneidade não prova que C é a causa de E. Talvez o evento C pode ter acontecido um pouco antes do evento E, mas isto também não implica que o evento C é a causa do evento E. É possível que uma simples coincidência tenha feito os dois eventos acontecerem tão próximos no tempo. Para encontrar o evento correto que causou o efeito, devemos pensar a partir de uma lei causal, e isto leva ao próximo nível.

2. Tipos

Uma lei causal tem a forma:

Eventos do tipo C causam eventos do tipo E

Neste nível não estamos falando de uma relação causal entre dois eventos específicos, mas estamos falando de uma relação causal geral entre dois tipos de eventos. Por exemplo, quando dizemos que fumar cigarros causa câncer de pulmão, não nos referimos a um homem em particular, João, que fumou e desenvolveu câncer de pulmão. Em vez disso, estamos falando fumar é um tipo de evento que causa outro tipo de evento, o câncer.

Os erros cometidos neste nível são consequência de se confundir correlação com causação. Da mesma forma que no nível anterior, dois tipos de evento podem acontecer simultaneamente, ou seguidamente, sem existir uma relação causal entre eles. Neste caso, é frequente os dois tipos de evento terem como causa um terceiro tipo de evento que foi negligenciado ou passou despercebido.

Os dois níveis normalmente têm a seguinte forma básica:

Evento x está relacionado ao evento y.
Evento x causou o evento y

ou

Eventos do tipo x são seguidos por eventos do tipo y.
Eventos do tipo x causam eventos do tipo y.

Como exemplo, podemos ilustrar o caso em que estavam sendo feitos estudos epidemológicos que mostraram que mulheres que estavam fazendo Terapia de Substituição Hormonal (TSH) também tiveram uma incidência de Doença Arterial Coronária(DAC) abaixo da média. Isto levou os médicos a proporem que TSH previnia a DAC. Entretanto, testes controlados mostraram que TSH causou um pequeno e significante aumento no risco de sofrer de DAC. Uma reavaliação dos dados mostrou que as mulheres que faziam Terapia de Substituição Hormonal normalmente eram de classes socio-economicamente privilegiadas, com uma dieta alimentar e rotina de exercícios melhores do que a média geral. Os dois eram efeitos coincidentes de uma causa comum, em vez de simplesmente causa e efeito como inicialmente havia sido suposto.

O Monstro Espaguete Voador

A paródia religiosa do Monstro Espaguete Voador, utiliza esta falácia para ironizar o raciocínio com que os teístas justificam suas crenças. Resumidamente, o Monstro Espaguete Voador gosta de piratas, os piratas são sagrados. Foi observado que desde o fim do século XIX, o número de piratas nos oceanos vem se reduzindo drasticamente e a intensificação do Aquecimento global aconteceu durante o mesmo período. A explicação é que o Deus Monstro Espaguete voador não gostou nem um pouco da diminuição no número de piratas e decidiu nos castigar aumentando a temperatura do planeta. Então o argumento é o seguinte:

Com a diminuição no número de piratas, houve um aumento na temperatura global durante o mesmo período de tempo.
Então o aquecimento global é causado pela falta de piratas.

Gráfico que mostra o número de piratas e temperatura global

Gráfico que mostra o número de piratas e temperatura global

Bombeiros e o fogo

Há também  o exemplo dos bombeiros:

Sempre que há um enorme incêndio, há também um grande número de bombeiros combatendo o fogo. Quantos mais bombeiros estão presentes, jogando água, maior é o fogo. Então quantos mais bombeiros combaterem o fogo, maior vai ser o incêndio; os bombeiros são a causa do fogo.

É difícil imaginar que alguém chegue a uma conclusão tão absurda quanto esta. Mas esta forma de raciocínio é bastante comum mas, é claro, substituindo os termos bombeiro e fogo por outros mais complexos e enganadores. Este tipo de erro é conhecido como causação reversa, onde a relação de causa e efeito é invertida. É óbvio que o número de bombeiros é grande porque o fogo é grande, em vez de o fogo ser grande porque o número de bombeiros é grande.

Outro exemplo que beira o ridículo é  o seguinte:

Quando as vendas de sorvetes crescem, a taxa de mortes por afogamento na praia cresce vertiginosamente.
Então, sorvete causa afogamento.

Este exemplo falha ao não reconhecer a importância do tempo nas vendas de sorvetes. Os sorvetes são mais vendidos durante o verão, e é durante o verão que as pessoas participam mais de atividades em que a água está envolvida, tais como nadar. O aumento das mortes é devido à maior exposição à água, não ao sorvete. Exemplos como este nos mostram que a leitura cega e ingênua de estatísticas pode ser perigosamente enganadora.

Minha avó

O último exemplo aconteceu comigo mesmo. Durante uma longa viagem, passei bastante tempo convivendo com meus avós e tive contato com todo tipo de falácias e falhas no raciocínio. Em um certo momento da viagem, adquiri um novo laptop, e então passei a ficar acordado durante a madrugada mexendo no computador. Minha avó, é claro, reprovou a minha atitude. Um dia eu assisti 3 filmes seguidos com meu avô, e sofri muito pois não estava com meus óculos e era um esforço enorme enxergar as legendas. No fim do dia, então, eu estava com uma dor de cabeça tremenda. Fui falar com a minha avó e disse que estava com dor de cabeça. Quase instantaneamente, ela afirmou de forma categórica:

Mas é claro que está com dor de cabeça, ficou a madrugada inteira na tela do computador!

Ela assumiu precipitamente como causa da minha dor de cabeça algo que apenas a tinha precedido, e sem dúvida não era a causa da minha dor de cabeça. A minha dor de cabeça era resultado de um terceiro evento, o enorme esforço visual que fiz durante horas vendo filmes na TV.

Minha avó cometeu a falácia Non Causa Pro Causa.

Outras falácias da categoria

Como eu disse no início do texto, a falácia Non Causa Pro Causa é um tipo geral de falácias de causalidade. Ela é dividida em outras subfalácias muito conhecidas, que são formas específicas da Non causa pro causa.
Algumas delas já apareceram nos exemplos anteriores:

Cum Hoc, Ergo Propter Hoc

Post Hoc, Ergo Propter Hoc

Falácia da Regressão

Falácia do Atirador do Texas

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  1. junho 17, 2017 às 6:19 am

    First!!!!!!!!!!

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