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Quine – Dois Dogmas do Empirismo [2]

Capítulo 1

2. DEFINIÇÃO

Há aqueles que acham reconfortante dizer que os enunciados analíticos da segunda classe se reduzem àqueles da primeira classe, as verdades lógicas, por definição; “solteiro”, por exemplo, é definido como “homem não-casado”. Mas como nós descobrimos que “solteiro” é definido como “homem não-casado”? Quem definiu assim, e quando? Será que vamos apelar para o dicionário mais próximo, e aceitar a formulação do lexicógrafo como uma lei? Claramente isso seria pôr a carroça à frente dos burros. O lexicógrafo é um cientista empírico, cuja tarefa é registrar fatos antecedentes; e se ele explica “solteiro” como “homem não-casado” é devido à sua crença de que há uma relação de sinonímia entre essas formas, implícita em geral ou de uso estabelecido anteriormente ao seu trabalho. A noção de sinonímia pressuposta aqui ainda precisa ser esclarecida, presumivelmente em relação ao comportamento linguistico. Certamente a “definição” que é o relato de um lexicógrafo de uma sinonímia observada não pode ser considerada o fundamento da sinonímia.

A definição não é, de fato, uma atividade exclusiva de filólogos. Filósofos e cientistas frequentemente tem ocasiões para “definir” um termo recôndito parafraseando-o em termos de um vocabulário mais familiar. Mas ordinariamente tal definição, como a do filólogo, é pura lexicografia, afirmando uma relação de sinonímia antecedente à exposição do momento.

O que significa afirmar uma sinonímia, e que interconexões podem ser necessárias e suficientes a fim de descrever duas formas linguisticas como sinônimas, ainda está pouco claro; mas, quaisquer que sejam essas interconexões, ordinariamente elas se fundam no uso. Definições que relatam instâncias específicas de sinonímia surgem então como relatos do uso comum.

Há também, entretanto, um tipo diferente de atividade definitória que não se limita a relatar sinônimos pré-existentes. Eu tenho em mente aquilo que Carnap chama de explicação — uma atividade à qual os filósofos se dedicam, e também cientistas em seus momentos mais filosóficos. Na explicação o propósito não é meramente parafrasear o definiendum em um sinônimo completo, mas na verdade aperfeiçoar o definiendum refinando ou complementando seu significado. Mas até a explicação, embora não meramente relate uma sinonímia entre o definiendum e o definiens, não repousa em outros sinônimos pré-existentes. A questão pode ser vista do seguinte modo: Qualquer palavra que valha a pena ser explicada possui alguns contextos nos quais é clara e precisa o suficiente para ser útil; e o proprósito da explicação é preservar o uso desses contextos enquanto aperfeiçoa o uso em outros contextos. A fim de que uma dada definição seja adequada para os propósitos da explicação, então, o que é requerido é que o definiendum em seu uso anterior seja sinônimo não do definiens, mas desses contextos favorecidos do definiendum, seja sinônimo com o contexto correspondente ao definiens.

Dois definientia alternativos podem ser igualmente apropriados para os propósitos de uma determinada tarefa de explicação e ainda não serem sinônimos um do outro; já que eles podem servir intercambiavelmente nos contextos favorecidos, mas divergir em outros. Se apegar a um desses definientia mais do que ao outro, a definição do tipo explicativo gera, por decreto, uma relação de sinonímia entre o definiendum e definiens que não estava presente antes. Mas tal definição ainda deve sua função explicativa, como vimos, a sinonímias pré-existentes.

Porém, ainda permanece um tipo extremo de definição que não retorna às sinonímias originais; a saber, a introdução convencional explícita de notações para propósitos de abreviação completa. Aqui o definiendum se torna sinônimo do definiens simplesmente porque foi criado expressivamente com o objetivo de ser sinônimo do definiens. Aqui nós temos um caso realmente transparente de sinonímia criada por definição; quem dera todas as espécies de sinonímia fossem inteligíveis deste modo. Para o restante, a definição repousa na sinonímia em vez de explicá-la.

A palavra “definição” porventura possui um som perigosamente tranquilizante, sem dúvida se deve a isto a sua frequente ocorrência em escritos lógicos e matemáticos. Nós devemos agora embarcar em uma digressão na análise do papel da definição no trabalho formal.

Em sistemas lógicos e matemáticos um dos dois mutuamente antagônicos tipos de economia devem ser buscados, e cada um tem sua utilidade prática peculiar. Por um lado nós podemos buscar a economia da expressão prática: facilidade e brevidade no enunciado de diversas relações. Este tipo de economia normalmente pede notações concisas e distintivas para uma multiplicidade de conceitos. Em segundo lugar, entretanto, e em contraste, nós podemos buscar economia na gramática e no vocabulário; nós podemos tentar encontrar um mínimo de conceitos básicos tais que, uma vez que uma notação distintiva é apropriada para cada um deles, se torna possível expressar qualquer conceito desejado por mera combinação e iteração de nossas notações básicas. Esse segundo tipo de economia é pouco prático em um sentido, desde que a pobreza em idiomas básicos tende a um prolongamento necessário do discurso. Mas é prático em outro sentido: o discurso teórico sobre a linguagem é simplificado, ao minimizar os termos e as formas de construção nas quais a linguagem consiste.

Ambos os tipos de economia, embora à prima facie sejam incompatíveis, são valiosos em seus meios distintos. O costume consequentemente surgiu da combinação de ambos os tipos de economia ao se fundir duas linguagens, sendo uma parte da outra. A linguagem inclusiva, embora redundante na gramática e vocabulário, é econômica no comprimento das mensagens, enquanto a parte, chamada de notação primitiva, é econômica na gramática e no vocabulário. O todo e a parte são correlacionados por regras de translação onde cada idioma que não esteja na notação primitiva é equacionado a algum complexo construído a partir de uma notação primitiva. Essas regras de translação são as chamadas definições que aparecem em sistemas formalizados. Elas são melhor vistas não como adjuntos a uma linguagem, mas como correlações entre duas linguagens, sendo uma parte da outra.

Mas essas correlações não são arbitrárias. Elas devem mostrar como as notações primitivas podem cumprir todos os propósitos, resguardar a brevidade e conveniência, da linguagem redundante. Então pode-se esperar que o definiendum e seu definiens, em cada caso, se relacionem de uma das três formas destacadas. O definiens pode ser uma paráfrase confiável do definiendum em uma notação mais simples, preservando a sinonímia direta de acordo com o uso anterior; ou o definiens pode, no espírito da explicação, aperfeiçoar-se sobre o uso anterior do definiendum; ou finalmente, o definiendum pode ser uma nova notação criada, dotada de um novo significado aqui e agora.

No trabalho formal e informal, então, nós descobrimos que a definição – exceto no caso extremo de introdução convencional explícita de nova notação – depende de relações anteriores de sinonímia. Reconhecendo então que a notação de definição não carrega a chave para a sinonímia e analiticidade, vamos olhar mais a fundo na sinonímia e não falar mais sobre definição.

3. INTERCAMBIALIDADE

continua…

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Categorias:Quine
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